Autonomia: Ser senhor do seu destino
Quando ventos e vendavais
Impeliram os navegadores do Infante
Para a calmaria do Porto Santo
Eis então chegados, às ilhas abençoadas e astrais
Terras suaves de cor e verde luxuriante
Lugar idílico, onde habita o deslumbre e o encanto.
Descoberta a terra, o lugar ameno
Aqui aportaram, gentios de outras paragens
Povoadores, destemidos e aventureiros
Obreiros anónimos, desta terra soalheira
Arautos, sonhadores e pioneiros
Que deram corpo e alma a esta Madeira.
Celeiro do Reino, jóia da coroa
Terra repartida de Capitanias e donatários
Nobres, clero, camponeses – gente boa
Aqui ficaram por opção, vontade ou degredo
Trabalhadores, mestres, visionários
Nestas ilhas encantadas, envoltas em mistério e segredo.
E o povo humilde, foi clamando
Não ao servilismo e à subjugação
Não ao poder central do reino
Não ao poder absoluto, ao desmando
E assim se foi das amarras libertando
No apelo profundo da razão.
Mesmo perante as adversidades e agruras
O abandono e o isolamento
Ergueu a sua voz de indignação
Com a força do querer e do alento
No ímpeto de sonhos e venturas
Dando peito à afronta e à opressão.
Era ancestral, esse sonho de ser livre
Senhor dos seus direitos e condição
Dono de si e da sua verdade
Não submisso, sujeito à resignação
O céu infinito como limite
No usufruto pleno da sua liberdade.
Antes das leis, a indómita vontade
De ser livre, senhor do seu futuro
Nestas ilhas de engenho e trabalho duro
Onde a mão, no vigor da enxada
Semeou terreiros, mondou socalcos
Fez da terra fértil, searas de tudo e nada.
Mas o tempo não amainou a luta
A injustiça eclodiu na revolta e indignação
O povo saíu à rua, no protesto e na disputa
Com coragem, destemor e ousadia
Pugnado por ser livre, sem subordinação
Com direitos, poderes, reconhecimento e autonomia.
“Do vale à montanha e do mar à serra
Teu povo humilde, estóico e valente
Entre a rocha dura te lavrou a terra
Para lançar, do pão, a semente”
É este o clamor que o seu hino encerra
Num grito apoteótico e pungente
Que ecoa em nós, ontem, hoje e sempre.
“Das ilhas as mais belas e livres” é dito com razão
Assim inscrito, a ouro, no corpo do seu brazão
Na bandeira, azul e amarelo, na profusão da cor
E a cruz da ordem de Cristo, a lembrar fé e devoção
Evocam a memória do tempo passado
A natureza pródiga, no seu esplendor.
Mas quando Abril aconteceu, na revolução dos cravos
Fez-se luz, na liberdade conquistada
Era um tempo novo, de ovação e alegria
Na saudação, lágrimas e brados
Na celebração magna da liberdade
E da consagração plena da autonomia.
Esta obra tem memória e pergaminho
Advém do esforço anónimo de tanta gente
De muitos que lutaram e abriram caminho
No percurso árduo da democracia
Assim reconhecidos, celebrando o passado e o presente
Crentes convictos, no futuro auspicioso e promissor, da autonomia.
*Rui Gonçalves da Silva/Madeira/Junho/2026
Nota : Poema lido, por alunos do curso de teatro, na sessão evocativa da cerimónia de abertura da I legislatura do Parlamento regional, no salão nobre do Governo Regional - 20 de julho de 2026