* Madeira:Trabalho no Basalto - abrindo caminhos nas escarpas

 

Um olhar sobre o passado - Epopeia do trabalho na Madeira antiga: abrindo caminhos nas escarpas de basalto

 

Trabalho árduo e sem Segurança

 

A Região Autónoma da Madeira - integra a Ilha da Madeira (740,7 Km2), a Ilha do Porto Santo (42,5 Km2), além das ilhas desertas (14,2 Km2) e as Ilhas Selvagens (3,6 Km2) - estas não habitadas, embora disponham de posto de vigilantes - sendo a sua ilha principal a da Madeira, de natureza vulcânica, marcada por uma orografia de altas escarpas, arribas abruptas, montanhas e acentuados declives, o que exigiu, na sua história de povoamento e colonização (em 2018 celebrou 600 anos do seu descobrimento), um trabalho árduo de desbravar a terra, para romper caminhos, talhar a rocha, traçar estradas, levar as águas para a irrigação dos terrenos, num processo monumental das "levadas", além de abrir socalcos nas encostas agrestes para fazer "poios" onde a agricultura se implantou, em desafios de arrojo e de coragem, como expressão da dureza do trabalho humano.

 

Foram estradas e caminhos rasgados na rocha, muitas vezes em escarpas altíssimas, junto ao mar, em autênticos precipícios, num trabalho complexo e arrojado, onde os trabalhadores de então arriscavam a vida - ao que consta com muitas mortes por quedas - trabalhando em condições precárias e sem com condições de segurança ou condições muito exíguas ou inexistentes, para dotar a terra de acessos, ora sobre as falésias, ora rompendo a montanha em túneis, ora pelos vales frondosos, em amenos caminhos, ladeados de plantas, arvoredo, flores e campos agrícolas.

 

Desse tempo e desses trabalhos arriscados, não abundam imagens, sendo que as poucas, como as que ilustram este texto – imagens pungentes de risco, esforço e insegurança nesse trabalho – vislumbram-se trabalhadores, pendurados em cordas, numa forma muito insipiente e frágil de suposta segurança no trabalho, abrindo sulcos no ventre do duro basalto, dias e dias de trabalho, a pulso, à força de picaretas e martelos, expostos ao vento, à chuva, ao calor, às intempéries, muitas vezes suspensos no abismo, onde a queda era fatal, como muitas vezes terá ocorrido.

 

 

Desse trabalho hercúleo, desse trabalho corajoso e difícil, dos trabalhadores de então, sobram ainda hoje esses caminhos, esses trilhos, essas veredas, essas levadas que levam a água a todo o lado e constituem monumentos de arte e engenho, mas sobretudo revelam trabalho, força e luta, no domínio da natureza, a um tempo bela, mas também desafiante, no desenho das escarpas e das falésias e dos vales profundos, que fazem esta Região um local aprazível, com uma natureza plena de encantos e de magia, no contraste entre o Mar, as montanhas e os vales floridos.

 

Hoje, a par destas vias resgatas à montanha e às escarpas, existem vias modernas, amplas, com túneis seguros, mas não apagam a memória dessas outras estradas e caminhos, que são obra de tanto engenho e sobretudo de esforço e sacrifício e que devem ser memória e lembrança desses heróis anónimos, que à força de braços, modelaram esta terra, tornando-a habitável e com acessibilidades, em obras de arte e trabalho, que testemunham esse tempo, essa gente valorosa, que legaram às gerações vindouras, tanta obra, feitas com tanto suor, tanto labor, tantas lágrimas.

 

Percorrer a Madeira hoje e olhar para esses caminhos, essas levadas, que serpenteiam montanhas e vales, é relembar essa história e homenagear esse trabalho e esses nobres trabalhadores, que merecem o nosso reconhecimento e respeito.

 

Hoje, grande parte desses caminhos, estão encerrados à circulação, num abandono cruel, relegados pelas novas vias e pela modernidade, o que é injusto e constitui um atentado à memória desse trabalho, que urge sanar, pela beleza desses atalhos - não obstante a perigosidade de algumas zonas, pela queda de pedras, ou pela ameaça da ondulação nas áreas mais ribeirinhas - mas que são ainda hoje um importante repositório da história insular, um acervo museológico de um tempo, de uma tradição, do trabalho e do arrojo desses trabalhadores e dos que morreram nesses trabalhos.

 

O presente faz-se desse passado e a memória dos homens deve salvaguardar os que abriam os caminhos do futuro – trabalhando em condições precárias, sem segurança, arriscando a vida - e que por isso devem ser saudados e dignificados pelo seu contributo para o que hoje usufruímos.

 

* Rui Gonçalves da Silva/Madeira