Êxodo dos protestantes madeirenses: a saída forçada dos protestantes - o passado de intolerância aos protestantes presbiterianos madeirenses
A história do País e particularmente da Madeira, está muito relacionada com os fenómenos de emigração, mais evidente no séc. XIX, onde a população emigrava face às precárias condições de vida de então, ou seja, tratava-se de um fluxo emigratório de cariz económico, na procura de outros destinos, carenciados de mão-de-obra e com garantias de obtenção de melhores condições de vida e salariais.
Contudo a par desta emigração voluntária (?) e de cariz económico - pela procura de melhores condições de vida - existiram fenómenos ocasionais de emigração forçada, por questões políticas e sobretudo religiosas, como ocorreu, quando da expulsão da Madeira (em 1836) de cidadãos que professam a religião protestante (presbiteriana), com adiante reportaremos.
O objectivo de qualquer religião, deve ser a crença, a espiritualidade, assente numa prática condicente, em valores humanos, que se traduzam no respeito pelo outro, no humanismo, na tolerância, na solidariedade, na concórdia, na dádiva, no assumir pleno da paz e no amor ao próximo, seja ele quem for, independentemente do seu credo, raça, etnia ou condição. Se assim fosse, na prática, teríamos decerto, um mundo melhor. Mas hoje e sempre, a realidade é bem diferente e em nome de credos e religiões, cometem-se as maiores atrocidades e vilanias, não obstante as contradições evidentes e as incoerências que persistem, para justificar comportamentos que em nada expressam essa suposta religiosidade.
São constantes e inúmeros os exemplos desta situação. Ontem, hoje e sempre.
Vamos relembrar um caso particular, vivenciado na Madeira, no século XIX (1838-1846), como lembrança e homenagem a pacatos cidadãos, nossos conterrâneos, que sofreram tão injustamente a intolerância, a perseguição e a afronta, pelo simples facto de terem uma opção religiosa diferente da maioria católica de então, uma vez que seguiam a crença protestante (presbiteriana), mercê do exemplo raro de entrega e afabilidade de um médico escocês, então na Madeira -Dr. Robert Kalley - que se dedicou de alma e coração à gente humilde desta terra insular, ao tempo, na sua maioria, sujeita a pobreza extrema, com feitos e obras de dedicação ao próximo, uma forma viva e contagiante de ser e de evangelizar, pela prática e pela dádiva, atitude que motivou a adesão à religião que pregava e sobretudo ao exemplo da sua vida.
Aqui e agora, em nome da memória de um passado de sofrimento de tais cidadãos humildes, na sua maioria pobres e iletrados, que sofreram agruras da intolerância religiosa, e por isso, evidenciamos a breve história desses protestantes madeirenses, que por força das circunstâncias, tiveram que abandonar o seu lar, a sua ilha, emigrando de forma forçada, para terras estrangeiras, na distante América, fugindo à repressão e ao castigo, atravessando, nesse ano de 1846, o imenso Atlântico, numa viagem longa e árdua, primeiro até Trinidad e Tobago e depois para a América do norte (EUA), para o Estado de Illinois, onde em Springfield e também em Jacksonville (Flórida), instalaram e criaram a sua comunidade, ainda hoje reconhecida e recordada.
Esta epopeia de resilência e labor, é um marco, uma referência e um exemplo da intolerância religiosa de então, numa pacata ilha, de maioria católica, mas também, da superação consequente, desses milhares de madeirenses, que foram banidos da sua terra, apenas por professarem religião diferente da maioria católica.
Trindad e Tobago é uma nação caribenha composta por duas ilhas, perto da Venezuela, Trinidad e Tobago. A capital de Trindade, é Port- of-Spain.
O país tem uma área de 5.128 km² e integra as ilhas de Trindade (ou Trinidad), Tobago e numerosos ilhéus. A ilha da Trindade é a maior e mais povoada, representando 94% da área do total e 96% do total de habitantes.
As ilhas do arquipélago de Trindade e Tobago, nas Caraíbas, foram descobertas por Cristóvão Colombo em 1498. Conquistado pelos ingleses em 1797, o país alcançou a independência em 1962. Os primeiros portugueses chegaram a estas terras na década de 1840, depois da abolição da escravatura em 1834. Foram substituir a mão-de-obra escrava nos campos de cana-de-açúcar.
Acção de Robert Reid Kalley na Madeira (1838-1846)
Face à doença da esposa Margareth, Robert Kalley, cirurgião escocês e missionário protestante, escolheu a Madeira, em 1838, como local apropriado para a recuperação da doença, embora já tinha anteriormente visitado a Região,em 1831, na qualidade de médico de navio militar.
Deve-se a este médico escocês a iniciativa de implantar uma comunidade protestante em território português – na ilha da Madeira, entre 1838 e 1846 – e, no Brasil, o estabelecimento da primeira igreja protestante com serviços religiosos em língua portuguesa, entre 1855 e 1876.
O Dr. Kalley nasceu em 1809, na Escócia e estudou na Universidade de Glasgow onde se formou em Farmácia e Cirurgia, em 1829, e posteriormente doutorou-se em Medicina, em 1838.
A realidade encontrada na Madeira, o sossego, a afabilidade do povo e o clima, acabaram por transformar o que seriam alguns meses de recuperação da esposa, em 8 anos de intenso trabalho, quer no domínio da medicina, quer da filantropia, quer no plano da evangelização.
Passada a adaptação, e perante o estado sanitário em que viviam as populações e o seu atraso cultural e económico, o Dr. Kalley dedicou-se a auxiliar esta população tão carente, na resolução dos problemas sociais, como a pobreza, a promiscuidade, o alcoolismo, a iliteracia e a superstição. Entretanto, perante a dificuldade do exercício público da medicina, em Portugal, que lhe exigia o reconhecimento da Faculdade de Medicina, submeteu-se a provas, em Lisboa, em 1839, para conseguir a necessária certificação.
No ano seguinte, deu início à construção de um hospital, onde atendia, gratuitamente, a população mais pobre da ilha. Seguiu-se uma intensa campanha contra o alcoolismo, fazendo espalhar por toda a ilha vasta informação impressa, que explicava os malefícios do álcool e como combater a dependência. Simultaneamente, deu início a uma campanha de alfabetização, criando escolas domésticas, onde era ministrado o ensino elementar: de dia, para crianças e à noite, para adultos.
As adesões a esta iniciativa foram de tal forma marcantes que em pouco tempo, existiam dezassete escolas que acolhiam mais de oitocentos alunos, que atingiram quinhentos alunos, entre 1839 e 1845.
A par da sua ação sanitária e pedagógica e de uma importante ação filantrópica, mantinha o sua missão de evangelização, no campo protestante, com enfase, no que é caracteristico desta religião, a difusão e leitura das escrituras sagradas, pelo que muitos alunos estabeleciam os primeiros contactos com as letras, através da leitura da Bíblia.
«Em 1839 eram uns poucos que mostravam desejo de ler e ouvir a Palavra de Deus, mas três anos depois, muitos caminhavam durante dez e doze horas e escalavam montanhas de mil metros de altitude à ida e à volta para suas casas; chegando a cinco mil as presenças ao Domingo» .
O sucesso do seu trabalho de médico, pedagogo, filantropo e missionário, em prol de uma população pobre, humilde e carente, determinou a sua aceitação e simpatia, por parte de muita gente, a quem dispensava atenção e apoio, do que resultou inúmeras adesões à sua comunidade religiosa. Deste modo, deu origem à congregação de fiéis aderentes aos valores e princípios religiosos que defendia (protestantismo), convertendo-os à fé reformada, em assembleias muito concorridas e participadas , onde os cânticos e a música desempenhavam um especial papel, com impacto profundo na pequena sociedade insular.
A sua ação religiosa assentava no exemplo e na sua postura de apoio e auxilio da população, que assim entendia o sentido da palavra e da missão na vida concreta das pessoas e não uma litúrgia teórica, de pulpito e de altar, como era timbre da religião católica, que muitas vezes privilegiada a palavra, o temor, e não a ação pastoral junto das pessoas.
Robert Kalley, na sua estada na Madeira, fez obra relevante, conforme consta dos relatos da imprensa da altura: “ Desde logo abriu escolas em vários pontos da ilha. Do seu próprio bolso pagou os salários dos professores e forneceu os livros (...) as escolas tornaram-se muito populares e num curto espaço de tempo, 800 adultos frequentavam-nas, além das crianças.”
Era um verdadeiro benemérito e dedicado a ajudar os mais pobres “ propôs-se a curar alguns doentes pobres em sua casa gratuitamente”.
Criou, mais tarde, um hospital dispensário, com 12 camas, com consultórios e farmácia gratuitos.
Em reconhecimento da sua ação, a Câmara Municipal do Funchal, mercê da ação filantrópica do médico escocês, faz um elogio público (louvor):
“Esta Câmara, tendo sido informada pelo administrador do concelho, em documento ificial datad0 de 25 de Maio de 1841, de que Roberty Reid Kalley, cidadão britânico, se tem ocupado em obras filantrópicas, mantendo à sua custa, escolas primárias em várias paróquias deste Concelho e Distrito, prescrevendo e ministrando gratuitamente actos médicos às pessoas que a ele acodem, mantendo também do seu bolso, próximo da sua casa, um hospital onde estão internados vários doentes (...) decide expressar ao Dr. Kalley pública gratidão”. (in Madeirenses Errantes - Ferreira Fernandes)
A ação filantrópica e evangélica do Dr. Kalley suscitou o reconhecimento de grande parte da população, muitos dos quais foram aderindo às suas ideias e exemplo, pelo que surgiram as conversões à nova religião (protestantismo) não só nas classe mais humildade, mas envolvendo também algumas personalidades e famílias mais abastadas “ Quando as conversões atingem até a alta-roda da sociedade, o eco da primeira grande evangelização protestante em Portugal , chega ao Reino. A sessão de 23 de novembro de 1844, na Câmara dos Pares, a pretexto da abertura de uma escola protestante em Lisboa, o bispo de Elvas alerta contra o perigo que os hereges fazem correr ao “ verdadeiro cristianismo” e cita o mau exemplo da Madeira “ -( in madeirenses errantes/ Ferreira Fernandes).
Não tardaram as reacções político-religiosas adversas, da igreja católica e dos seus arautos. por parte dos que se sentiam, ultrapassados, censurados ou postos em causa, que difundiam as preces e orações, quase que erigindo a pobreza, a condição aceitável, sem ter em conta precariedade de vida das populações, provocando que os fiéis católicos fossem atraídos, cada vez mais, por práticas religiosas mais próximas das suas vidas, como era o testemunho do exemplo de evangelização dos protestantes, na pessoa do Dr. Kalley.
Contudo este sucesso motivou movimentos discordantes de alguns católicos, instigados pelos membros da igreja e foram surgindo as ameaças, as perseguições e a propaganda de desacreditação de Kalley, com consentimento e até instigação do Governador e de alguns clérigos, que culminou com a sua condenação e consequente prisão durante seis meses e a perseguição feroz e espancamento de muitos dos seus seguidores . No auge da adversidade, os Kalley viram a sua casa assaltada e os seus pertences atirados à rua e queimados, tendo este se refugiado a bordo de um barco inglês, e a esposa, em casa do cônsul .
O combate ao “Calvinismo” atinge proporções significativas, tendo o bispo de então, declarado que excomungava “ quem ler a biblia” e aos que se converteram ao protestantismo, é declarado: “ Que ninguém lhes dê fogo, água, pão ou o quer que seja que os auxilie, quem lhes for devedor, que não pague as dividas”. Nesta perseguição, muitos são atacados e consta que no ano de 1845 cerca de 30 protestantes estavam presos, incluindo o Dr. Kelley.
A prisão do dr. Kalley, ao abrigo de uma lei contra a heresia, de 1603, levou também para a prisão cerca de três dezenas dos seus seguidores, dos quais um chegou a ser degredado para a Angola - José Ferreira Lomelino, e uma mulher - Maria Joaquina Alves - mãe de sete filhos, viu a sua condenação à morte, comutada em dois anos e seis meses de prisão.
Perseguição e Tumultos (1841-1846)
Os rumores de que os actos de filantropia do Dr. Kalley tinham por objectivo a propagação da sua Fé entre a população madeirense, mediante as leituras que fazia da Bíblia aos doentes do seu hospital, não tardaram a chegar ao conhecimento do Governo do Reino que imediatamente, instruiu o Bispo do Funchal a fazer “cessar as palestras religiosas” de Kalley. A população no entanto manifestou-lhe o seu apoio, expresso em “muitas Representações dirigidas ao Governo assinadas por um grande número de respeitáveis cidadãos”, em que as qualidades do médico eram destacadas e louvadas, e desmentidas as acusações de que estaria a tentar converter os seus doentes à Fé protestante, realçando que a adesão que se verificava correspondia a manifestações voluntárias, por reconhecimento do seu valor, empenho, exemplo e dádiva.
No entanto o Prelado não se convenceu da inocência de Kalley, nomeando uma Comissão para examinar os exemplares da Bíblia de edição inglesa, que o médico colocara em circulação na Madeira. Após dois anos de trabalho de revisão, a Comissão Revisora foi de parecer que, embora as Bíblias usadas por Kalley tivessem estampado no rosto o nome do Padre Antonio Pereira de Figueiredo, como seu tradutor; não eram todavia cópias fieis de sua tradução, a qual sendo aprovada pela Igreja Lusitana, era a única, cuja leitura, podia e devia ser consentida ao Publico Português. Em consequência deste parecer, as Bíblias usadas por Kalley e pelos seus seguidores foram anatemizadas e ordenada a sua confiscação.
As hostilidades contra o Dr. Kalley agravaram-se sobretudo a partir de Janeiro de 1843, quando afixaram um papel na porta de sua casa, ameaçando matá-lo caso continuasse a abordar matérias religiosas, o que levou o Dr. Kalley a solicitar protecção ao Cônsul britânico - contando igualmente com o apoio da influente comunidade britânica residente na Madeira, sobretudo dos comerciantes - por isso, apesar dessas dificuldades, foi dando continuidade às suas actividades médicas, filantrópicas, pedagógicas e evangélicas.
Noite de São Bartolomeu
(No Dia de São Bartolomeu o diabo anda à solta, segundo a tradição popular,como acontecera de 23 para 24 de agosto de 1572, no dia de São Bartolomeu, onde sucederam inúmeros assassinatos em Paris, num massacre de protestantes, protagonizado pelos católicos)
As hostilidades contra os hereges (protestantes)aumentava e ganhou expressão de tumulto e vingança. Planearam um data para o desenlace: a perseguição tinha começado dias antes, a 8 de Agosto, no Santo da Serra e no dia seguinte logo que terminada a missa a Nossa Senhora do Monte, celebrada na Sé Catedral, foi lançado o foguete que dava o sinal para o início da onda de violência que estalou em toda a Madeira, uma espécie de cruzada brutal, terrível e devastadora com o intuito de exterminar a “heresia protestante”. Nos arredores do Funchal os archotes abriram caminho para a invasão das casas dos fiéis hereges, já a noite ia alta. Foi terrível essa noite para os perseguidos, relembrando a célebre noite de S. Bartolomeu, ocorrida também no mês de Agosto, no massacre de protestantes pelos católicos.
A intolerância religiosa não é um problema novo nem apenas de outras paragens. É antigo como o mundo e também o chamado país dos brandos costumes tem alguns episódios pouco edificantes para contar. Este Dia de S. Bartolomeu à madeirense será talvez o pior deles nos últimos dois séculos.
A saída da Madeira: a escapatória da perseguição aos protestantes
Porém persistiam as hostilidades e afrontas e em consequência desta situação, com perseguição e violência, o Dr. Kelley foi forçado a sair da Madeira e regressar a Inglaterra. Relativamente aos demais, dos que se tinham convertido à religião protestante (cerca de 2000), também não tinham vida fácil, pelo contrário, eram apontados e perseguidos como hereges e “calvinistas”, tornando arriscado a sua permanência, tendo sido compelidos à emigração forçada, perante a onda de hostilidade. Aproveitando os barcos que aportavam o Funchal no recrutamento de emigrantes, partiram para as Índias Ocidentais, primeiro para Trinidad e Tobaco e depois para os Estados Unidos e Brasil, onde se instalaram, apoiados pela comunidades protestantes locais, onde refizeram as suas vidas, alguns prosperando nos negócios, fundando comunidades protestantes - igrejas, escolas, associações - que persistem nos nossos dias.
Depois das perseguições, aos pioneiros protestantes da Madeira, em 1846, o que restou dessa comunidade, passou a praticar o culto na clandestinidade, reunindo-se em locais afastados (p.e. na Quinta da Ameixoeira, em Santo António da Serra) estudando a Bíblia e praticando a sua fé. Trinta anos depois, e devido a novas condições políticas, foi possível reactivar a ação protestante na Madeira, todavia agindo de forma discreta e apaziguadora, de modo a não suscitar animosidade da Igreja oficial católica, que colocasse em risco a segurança dos ingleses que viviam na Madeira.
Segundo alguns historiadores, a feroz perseguição político-religiosa, naquela época, só é explicável devido à instabilidade política e social em Portugal. Durante cerca de dez anos, a que corresponde o período da agitação da Madeira, viveram-se em Portugal momentos de grande turbulência política que oscilaram entre o máximo laxismo institucional, provocado por inúmeras revoltas e golpes militares, e a mais férrea ditadura que caracterizou muitos dos governos de Costa Cabral.
Neste contexto teremos de evidenciar a evolução das relações da Igreja Católica com o Estado, que oscilaram entre a contestação popular, até à aproximação da Igreja e do Liberalismo, celebrado com o reatamento das relações diplomáticas entre Lisboa e a Santa Sé, em 1841/42, de que resultou a retoma do poder eclesiástico e o acerbar de posições dos mais conservadores, que defendiam que a harmonia e a unicidade nacional pressuponham uma única religião no reino, ou seja, a católica.
Por parte da Grã-Bretanha, haverá que ter em conta o relacionamento entre a Igreja oficial (o Anglicanismo) e a Igreja Livre da Escócia (tida por dissidente do Presbiterianismo oficial escocês) a que pertencia o Dr. Kalley, e que explicará o escasso apoio que este recebeu, tendo em conta as políticas conciliatórias que sempre foram oficialmente defendidas, para obstar animosidades com as entidades civis e eclesiásticas locais.
A comunidade britânica residente na Madeira, começou a adquirir uma importância significativa a partir dos finais do século XVI, época em que as Igrejas estabelecidas dos britânicos já eram protestantes, contudo estes tinham uma visão ecuménica da Igreja e da Fé, porém a sua prática religiosa estava apenas confinada aos seus conterrâneos, sem preocupação de evangelização dos locais. A prática do seu culto era realizada em igrejas privadas, frequentadas exclusivamente pelos seus membros e como tal, a situação era pacífica sem problemas com a Igreja local católica.
As iniciativas do Dr. Kalley no campo da filantropia, do apoio à população mais carente, e a sua ação evangélica, numa primeira fase, não suscitou animosidade dos poderes locais, nem pelas autoridades eclesiásticas nem civis, contudo com a crescente adesão da população a este movimento, protestante, suscitou posteriormente a reação de tais entidades, que o acusaram de estar a querer propagar a Fé protestante entre os madeirenses, em detrimento da fé católica dominante.
Os fundamentos da evangelização protestante
Tendo vivido na Madeira durante cerca de oito anos, a dimensão do impacto das actividades de Robert Kalley e da sua influência sobre os madeirenses deve ser avaliada face algumas das importantes diferenças de carácter ético, teológico e eclesiológico entre Catolicismo e Protestantismo, sobretudo o Protestantismo Reformado helvético, que em Inglaterra, inspirou a dissidência à Igreja estabelecida pela Rainha Isabel I — que pôs fim à uniformidade religiosa do que resultou, a instituição da Igreja da Escócia, de cujo legado religioso Robert Kalley foi representante..
Enquanto fenómeno religioso, a Fé reformada, também conhecida por Calvinismo ou Presbiterianismo, caracteriza-se pela prevalência dos valores morais, decorrente da ênfase dada ao dogma da predestinação. Embora esse dogma fizesse parte da tradição cristã, assumiu a expressão de decreto divino absoluto, com os reformadores helvéticos, sobretudo com João Calvino que na sua teologia, afirmava “ Deus destituiu a humanidade do livre-arbítrio, dividindo-a em eleitos e réprobos, filhos da luz e das trevas”.
Os Protestantes eram fundamentalistas no estudo e tratamento da Bíblia, diverso da prática católica, pois a salvação para o homem ou a mulher protestante não era assegurada por práticas religiosas como a confissão, a penitência, a comunhão e boas obras, considerados meios de transmissão de graça salvador, mas pela Fé, adquirida pelo intenso exercício da experiência pessoal de Deus, intermediada pela leitura e estudo das Escrituras Sagradas e de outros textos devocionais, complementado pela pregação e pela prática do bem, doutrinas que tornaram a Salvação um acto individual. O exercício intensivo da Fé entre os Protestantes não se limitava ao serviço religioso na igreja paroquial, sendo aplicável a outras formas de culto público que incluiam à prática religiosa doméstica, individualmente e em grupos de familiares, amigos e vizinhos, onde estudavam a Bíblia, aprendiam o catecismo calvinista, liam sermões e escritos devocionais, compunham as suas próprias preces espontâneas, cantavam salmos, meditavam .
Os pastores protestantes promoveram exaustivamente o alargamento do conhecimento da Bíblia a todos os estratos sociais. A responsabilização de cada indivíduo pela sua própria salvação, através da prática adequada do culto a Deus em conformidade com a Sua Palavra, sendo a leitura da Bíblia um acto individual.
Foi nesse sentido que os Protestantes desenvolveram projectos de educação universalistas e se empenharam no exercício intensivo da instrução religiosa do povo, pois para entender a Biblia era necessário saber ler ( ao tempo proliferava o analfabetismo).
Para os Calvinistas, a Bíblia era a única autoridade que reconheciam em matéria de Fé e fonte única de inspiração em todos os domínios, inclusive o da política.Tudo o que não estivesse expressamente nela inscrito deveria ser rejeitado e resistido. Na sua pregação, os pastores protestantes davam ênfase especial ao ensino de doutrinas como ‘direito à liberdade de consciência religiosa’, ‘igualdade na Fé’, ‘soberania absoluta de Deus’ e ‘primazia da obediência aos seus mandamentos. Foram essas mudanças que permitiram que a Grã-Bretanha se transformasse na nação europeia onde primeiro floresceu o liberalismo social e político, consagrado na Bill of Rights de 1688 — declaração de direitos, que um século mais tarde, serviu de modelo à Constituição dos Estados Unidos da América e das nações da Europa continental que adoptaram formas de Governo constitucionais, nas quais se inclui Portugal.
O exílio dos protestantes madeirenses e a fuga para a liberdade - Da Madeira para Trinidad e depois a América /EUA
Em 1846, os refugiados madeirenses, protestantes, forçados a abandonar a sua terra natal, pelo clima de perseguição e hostilidade, pelo simples facto de professarem outra religião que não a que seria a aconselhável e a aceite pelo regime (a religião católica), partiram (em fuga) aproveitando a presença de um barco que aportava no Funchal (William of Glasgow) na missão de recrutar mão-de-obra, para as plantações de cana de açúcar, de tabaco e café, situadas nas Caraíbas, mais propriamente em Trinidad ( de onde é natural o prémio nobel da literatura V.S.Naipaul), pois com o fim da escravatura ocorrida naqueles locais, existia carência de trabalhadores, para a agricultura e os trabalhadores madeirenses tinham o perfil e as aptidões adequadas.
O conjunto de madeirenses protestantes exilados, que chegaram a Trinidad (Port-of-Spain) tiveram direito a apoio, conhecida a sua história e os motivos da sua fuga da Madeira, pelo que foram poupados a terem de ir para “ as insalubres plantações de açúcar”, indo alguns para plantações de café e de cacau, com outras condições de trabalho, ficando a maioria nas cidades em trabalhos diversos (domésticos, jardinagem, comércio, indústria, destilação de rum). Segundo dados existentes, estariam então, em Trinidad 450 portugueses protestantes, “O serviço religioso de domingo em Port-of-Spain enchia-se com três centenas de madeirenses, sabendo que mais de uma centena deles se tinha espalhado pelas plantações do interior e outros pelas cidades de Arouca e San Fernando” ( in madeirenses errantes /Ferreira Fernandes)
A primeira vaga de madeirenses a ir para Trinidad terá ocorrido em 1834 (28 pessoas), a que se sucederam outras idas, pelo que no conjunto das viagens, entre 1846/47, terão emigrado 1.246 madeirenses.
A passagem e permanência de muitos madeirenses (protestantes e católicos) por Trinidad, deixou marcas profundas desta comunidade, quer pela criação de igrejas evangélicas, quer por várias situações de sucesso profissional de alguns deles, sendo referências que persistem nos nossos dias (p.e. destilaria - Rum Fernandes)
A estadia em Trinidad não foi assumida por alguns dos exilados, como objectivo final, mas o sonho seria a América, como destino definitivo, como local de maiores oportunidades, alimentando a esperança de um futuro melhor.
Assim, dois anos depois (agosto de 1848), com o apoio da American Protestant Society, que disponibilizou viagens pagas e alojamento, um grupo de 58 exilados protestantes madeirenses, partiu para Nova Iorque, a que se seguiram outros grupos, em outras viagens (em maio de 1849 foram 53 exilados e em Agosto mais 219 protestantes). Além dos que partiram de Trinidad foram chegando à América, protestantes madeirenses vindos da directamente da Madeira, também fugindo das perseguições religiosas (em 1853 e 1854 chegaram 233 exilados).
Com o apoio da comunidade protestante americana, surgiram ofertas de terras e trabalho, em Springfield (Illinois) e em Jacksonville (Flórida), cidades próximas, onde se instalaram as várias famílias de exilados madeirenses, com boa aceitação dos locais (eram solidários com os protestantes madeirenses e admiravam a sua persistência, fé e coragem), e assim foram progressivamente reconstruindo as suas vidas, com trabalho, sacrifício e empenho, integrando-se plenamente nas comunidades, como exemplo de resiliência e sociabilidade, com destaque na missão evangélica e nas suas actividades profissionais, valores que transmitiram às gerações seguintes, deixando obra e marca, que perduram na memória e na história dessas comunidades.
Catolicismo versus protestantismo
As diferenças práticas entre o catolicismo e o protestantismo manifestam-se na forma de culto, na estrutura da igreja e na interpretação das fontes de autoridade. Embora ambos partilhem a fé em Jesus Cristo, as suas tradições
1. Autoridade e a Bíblia
Fontes de Verdade: O catolicismo baseia-se num conjunto de referências, composto pela Sagrada Escritura, Tradição Apostólica e o Magistério (Papas e Bispos). O protestantismo, por seu lado, segue a “Sola Scriptura”, considerando apenas a Bíblia como regra de fé e prática.
Cânone Bíblico: A Bíblia Católica contém 73 livros, enquanto a Protestante tem 66 livros.
2. Sacramentos e Liturgia
Número de Sacramentos: A Igreja Católica reconhece sete sacramentos (Batismo, Confirmação, Eucaristia, Confissão, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimónio). A maioria das igrejas protestantes celebra apenas dois: o Batismo e a Ceia do Senhor (Eucaristia).
Eucaristia: Católicos creem na transubstanciação (o pão e o vinho tornam-se literalmente o corpo e sangue de Cristo). A maioria dos protestantes vê a Ceia como um memorial simbólico.
Confissão: Os Católicos confessam os pecados a um sacerdote; os protestantes acreditam no sacerdócio de todos os crentes, confessando diretamente a Deus.
3. Figuras Centrais e Devoção
Papa: Os católicos reconhecem o Papa como o sucessor de São Pedro e líder visível da Igreja. Os Protestantes não aceitam a autoridade papal.
Maria e Santos: O catolicismo pratica a veneração (não adoração) de Maria e dos santos, recorrendo à sua intercessão. Os Protestantes enfatizam apenas a mediação de Cristo e geralmente não possuem esta devoção.
Símbolos: O catolicismo utiliza o crucifixo (com a imagem de Cristo), enquanto o protestantismo opta pela cruz simples, simbolizando a ressurreição.
4. Estrutura e Vida Quotidiana
Clero: No catolicismo, os padres devem observar o celibato. No protestantismo, os pastores e presbíteros podem casar-se.
Vida após a morte: Além do Céu e Inferno, a doutrina católica inclui o Purgatório, um estado de purificação temporal, que não é reconhecido pela teologia protestante.
Ambiente de Culto: Igrejas católicas tendem a ser mais ornamentadas com imagens e arte sacra, enquanto as protestantes privilegiam a simplicidade, focando no púlpito para a pregação da palavra.
Acto de contrição da Igreja católica local - o pedido de perdão
O que aconteceu na Madeira, naquela época (sec.XIX) com os seguidores do protestantismo e a atitude de hostilidade e rejeição por parte da igreja católica, só é entendível, num contexto temporal e sócio-cultural muito específico, com atitudes primárias de repressão e de não aceitação do outro, dos que não comungavam dos ideários religiosos da maioria católica.
Com o passar dos tempos e com a natural evolução dos costumes e das ideias, com o fomento do eucumenismo religioso, do respeito por todas as crenças e manifestações religiosas, que a Igreja católica paulatinamente assumiu, a situação alterou-se e tais desentendimentos foram superados e a concórdia imperou, no conviver sereno e cordato de todas as opções.
Nesta linha de ação e de cooperação, em 1999, D. Teodoro de Faria, então bispo do Funchal, na semana cristã - envolvendo católicos, luteranos, anglicanos, presbiterianos - pela primeira vez, pediu, em nome dos católicos, perdão aos protestantes madeirenses pelos acontecimentos de 1846 e com tal atitude, honrou os valores cristãos e prestou homenagem aos que no passado, sofreram a injustiça e as agruras, de serem compelidos a abandonar a sua terra, apenas por terem uma crença diferente.
Obras sobre a saga do exílio dos protestantes madeirenses
Existem vários trabalhos, que abordam a situação inerente aos protestantes madeirenses que em 1846 saíram da Madeira, fugindo às perseguições e ao anátema dos católicos. Referenciamos estas:
A linha do Sal - romance de Katherine Vaz (centrado na vida de protestantes madeirenses na América)
Sobre esta problemática dos imigrantes madeirenses protestantes, surgiu uma obra ficcional nascida desta história verídica de imigração, que deu origem a uma história romântica, passada durante o pouco conhecido conflito religioso entre católicos e protestantes na Madeira no século XIX). Este romance, parte dos dados da realidade vivida pelos madeirenses protestantes, que tiveram de abandonar a sua terra, por força da perseguição que sofriam e da sua vida reconstruída na América, ficcionando as suas vivências, com a história amorosa e familiar de alguns destes, relevando contudo, o trabalho destes e a criação de raízes profundas na sua comunidade e na evangelização protestante. A autora, descendente de pai português dos Açores, dá conta, no prefácio, dos factos que a levaram a escrever esta obra, centrada na epopeia destes portugueses:
“ Há cerca e vinte anos, a Biblioteca do Congresso ( o departamento Hispânico) em Washington, convidou-me para fazer uma palestra sobre o meu trabalho, e a Drª Iêda Siqueira mostrou-me uma curiosa exposição na Sala dos Mapas: estampas das terras e empresas que, no século XIX, pertenceriam aos “protestantes madeirenses do Illinois”. Assim começou a minha longa viagem à descoberta da história verídica de um grupo de madeirenses que, tendo sido convertidos ao presbiterianismo por um missionário escocês chamado Robert Reid Kalley, foram alvo de perseguições religiosas e fugiram da Madeira rumo aos Estados Unidos. Eu nunca tinha ouvido falar desate episódio, mas ainda hoje existe uma “ Madeira Hill” em Jacksonville, onde muitos dos refugiados trabalharam, encarregando-se de pequenas tarefas.”
Esta obra, embora tratando-se de ficção, tem por base um enredo, que retrata a vivência dos madeirenses protestantes que aportaram a América vindos da Madeira (passando por Trinidad) e permite vislumbrarmos aspectos importantes dessa integração, das memórias da terra natal, das tradições e costumes e da obra realizada, quer no plano religioso ( construção de templos) quer de clubes associativos, além de dar conta do sucesso profissional e social de alguns destes, sempre num contexto e numa atmosfera que evidencia o lado português e regional, dos intervenientes.
Madeirenses Errantes, de Ferreira Fernandes: Este trabalho retrata com detalhe a situação vivida então por estes protestantes madeirenses e a ação do médico escocês Robert Kalley em apoio eevangelização da população da Madeira, sobretudo dos mais carenciados. Esta obra é apresentada como “ Uma saga extraordinária de quase dois mil portugueses que emocionou o mundo protestante em meados do sec. XIX. Uma diáspor que correu vários mares e pradarias - da Madeira para a ilha Trinda”.de, das Caraíbas para o Illinois, e daí para o arquipélago do Havai”.
Este livro apresenta todo o drama destes protestantes madeirenses, a situação vivida, todo o itinerário desde a Madeira, passando por Trinidad e a integração na América (Sprinfield e Jacksonville), identificando os personagens desta aventura e seus descendentes, a vida social, familiar, religiosa e profissional destes, o essencial da obra realizada e do carisma desta comunidade, ainda hoje lembrada e reconhecida naquelas paragens.
A leitura deste livro possibilita uma imersão plena na realidade de então, transportando-nos a essas vivências, vivenciando toda a realidade envolvente, com referência a várias famílias e ao seu percurso de vida, de forma bem documentada e elucidativa.
Conclusão
Elaborámos este apontamento, para evidenciar e relembrar esta história triste, que ensombrou as relações religiosas na Madeira (católicos versus protestantes) em memória dos protestantes madeirenses que sofreram então, a rejeição/perseguição/hostilidade, de seus conterrâneos, e como tal tiveram que abandonar de forma abrupta e forçada, a sua terra e pertences, enfrentando os desafios de novos mundos desconhecidos, apenas por terem uma opção religiosa diferente.
Sendo católico, sem ser incondicional com algumas práticas, rituais e ações da Igreja, como instituição, entendo que a religião, qualquer que seja, não deve justificar comportamentos destituídos de humanidade, de ética, de benevolência, com exacerbações messiânicas de supostos iluminados, com radicalismos e exclusão do outro, por diferente que seja (raça, etnia, religião, política, económica, condição social), quando na essência e perante os valores espirituais, somos todos iguais, o que nos impele a pugnar, sobretudo, por um mundo inclusivo, mais fraterno e solidário, sem violências, sem guerras (não existem guerras santas) sem arrogâncias, sem ódios e aviltamentos, mas onde prevaleça a concórdia,a pacificação, o diálogo, a sensatez e o altruismo, valores e princípios, que devem ser comuns, a qualquer crença ou religião.
* Rui Gonçalves da Silva/Madeira/2026
Bibliografia
- Madeirenses Errante - Ferreira Fernandes
- A linha do Sal - Katherine Vaz
-Roberty Kalley, The missionary - Rui A. Costa Oliveira
-AD Aeternum - revista de teologia nº 1 /2011
-Robert Kalley - Maria Zina Abreu
- Jorge Gameiro - 2011 ( pastor protestante na Madeira)
-A saga dos protestantes da Madeira -Alberto Franco