* ANATOMIA DA CRISE



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Tanto se fala da crise. Tornou-se personagem, mito real do hoje. Não se sabe exactamente o que é, como se revela, que rosto possa ter. Está em tudo, no virar da esquina, nas conversas e nos desesperos.Dela dizem de tudo, e que para além de já o ser, visível nas ângustias, mas há-de ser bem pior, profetizam os arautos das desventuras e das certezas, paladinos do além, quando cheira a fumo e a terra queimada, como se não não bastasse o medo que semeia, o negro que traz às vidas, a dúvida constante dos amanhãs, mas mesmo assim, insatisfeitos, vaticinam que ainda fará pior. Pior? Como se não fosse suficiente o rasto de dramas, nos sonhos quebrados, no desemprego gerado, nas insolvências profissionais e pessoais, nos horizontes fechados a tantos, sobretudo jovens, que desesperam sem esperança de futuro.

A dita crise, que não se sabe a cor, o corpo e a forma, vagueia por todo o lado e corrói os sonhos mais sublimes, como se fosse uma maldição, um demónio sem rosto, que está por aí, a devorar o hoje, insaciável, como convém aos mitos. É um quase fantasma que paira no mundo, mas sobretudo no  concreto das nossas vidas. Entra mesmo nas casas. Nas famílias. É uma nuvem negra, o corpo de um pesadelo.Não se vê ao certo, sente-se aqui e ali, no preço que sobe desmesuradamente, no corte dos salários, no aumento dos impostos, no agravar das dividas ditas soberanas, no preço dos transportes, do pão, das propinas. A crise afecta as pessoas e o País, que também é devedor, e o País somos nós, não os poucos que sempre decidem do cimo da sua arrogância, mas de todos nós, que na hora de pagar a factura  e definir as culpas dos erros(?) e dos actos irresponsáveis (crimes?), de uns quantos que sempre governaram (se),somos todos nós, o Portugal inteiro, a sentir na pele, no corpo, na alma e no tutano, essa dolorosa ansiedade da crise , e temos de pagar, todos, do simples e pacóvio cidadão da aldeia mais remota, que apenas sabe da vida e  das coisas, o que a natureza segreda e  diz, nos limites do pasto e da terra que cultiva de couves, batatas e grelos, e do anónimo cidadão do 6º esquerdo de um qualquer bairro social algures, todos nesse momento somos patrióticamente  chamados à responsabilidade e como tal suportamos a crise. Mesmo que pouco se saiba dela. Como é, porque está aí, ao que vem, quem a chamou, quem a atiçou.

A crise, dando esse nome, a este complexo de inquietude, de incertezas e de castigo, paira como abutre e debica o mais intimo dos sonhos, transforma o que o hoje ainda possa ter se tranquilo e sereno, de certo e seguro, num pântano de medos e insegurança, afectando todos, os que dependem do seu trabalho e parcos rendimentos, das suas poupanças de uma vida de esforço, das suas reformas ou escassos salários e aqueles, sobretudo os jovens, que esperam um futuro  risonho, e não este mar de dúvidas, este caminho de portas cerradas, onde não vislumbram espaço para viver.
A prosperidade, mesmo que ilusória e oca, tem rosto. O sucesso  e o dito progresso, quando de vento em pompa, tem sempre os seus timoneiros, os seus heróis medalhados, os líderes, os generais, os iluminados. Mas quando corre mal, não há rosto. Quando há o colapso, fogem, escondem-se nas perspicácias, apontam o dedo a outros e tiram férias sabáticas. O sucesso tem rosto,tem heróis,  o fracasso tem vitimas.

A gestão da crise, o medo que a associam, a culpabilização dos outros, a imposição dos limites, o ónus da sua liquidação, imputável sempre à massa anónima, faz parte catarse dos ditos lideres, que agora são anjos salvadores, angélicos na sua sábia premonição, quando na sua maioria deveriam ser responsabilizados, pelos actos e pelas insensatas decisões que levaram a este caos, pelas fortunas que muitos avolumaram, de modo a que esses, que são o verdadeiro rosto da crise, a mão visível que moldou este desvario, assumam as consequências desta falência, deste descalabro.impiedosamente os mais vulneráveis, deixando dor, mágoas, sofrimento e feridas profundas em tantos, milhares de cidadãos que sempre acreditaram no seu País.

Da minha parte, como tantos e tantos, sempre trabalhei honestamente, sempre dei o meu melhor, sempre vivi a vida à dimensão das minhas possibilidades,contribuindo e bem para as finanças públicas através dos meus impostos, e não obstante suportar agora as consequências da dita crise, com cortes salariais substanciais, com redução dos meus rendimentos e expectativas futuras, aceitando sem opção estas decisões, na esperança de assim ajudar à retoma deste País, em nome sobretudo dos jovens, das novas gerações e dos meus filhos e netos, mas não assumo culpas de outros, não aceito essas ângustias colectivas que pretendem inculcar-nos, e mesmo assim, com todas essas limitações, não vou nessa Crise, não abdico do que sou e quero, viverei a minha vida como posso, mas com a liberdade suprema de sonhar e de ser feliz, porque em mim, no meu espaço íntimo, nas minhas ideias e convicções, mandou eu, num território imune aos decretos dos outros, muito menos desses políticos, desses partidocratas medíocres que se revezam no poder.

A crise tem limites e a fronteira é o nosso mundo pessoal, o universo dos nossos sonhos.

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