*1º CONDE DE CANAVIAL - JOÃO DA CÂMARA LEME HOMEM DE VASCONCELOS - Tópicos de uma vida

 

Dr. JOÃO DA CÂMARA LEME HOMEM DE VASCONCELOS - CONDE DE CANNAVIAL -   Tópicos de uma Vida

Foi um dos mais ilustres madeirenses da sua geração, marcando a vida regional do século XIX, pelo seu saber, pela sua cultura, pelo seu empreendedorismo, pelo seu espírito criativo, pela sua intervenção multifacetada, em vários domínios e por isso, esta nossa atenção, nesta síntese evocativa, para memória e reconhecimento do seu valor e do seu mérito, com o registo e enaltecimento da sua obra e da sua vida nos aspectos mais essenciais.

O Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos, nasceu no Funchal a 22 de Junho de 1829, tendo falecido, com 73 anos, a 13 de Fevereiro de 1902, nesta cidade, depois de um percurso de vida exemplar e de elevado mérito, distinguindo em várias áreas, seja como médico, cientista, inventor, professor, naturalista,político, escritor, jornalista, empresário industrial, deixando-nos um vasto acerco documental de obras publicadas mas várias áreas da sua intervenção.

Oriundo de família abastada da Região, era filho de António Francisco Câmara Leme  Homem de Vasconcelos e de D. Carolina Moniz de Ornelas Barreto Cabral, tendo casado, em 1853 com D. Maria Amélia Afonseca.

Concluídos os estudos secundários no Funchal/Madeira,foi para França (Montpillier) onde estudou e concluíu o bacharelato em ciências (1852) e o doutoramento em medicina (1857), com a teses " Études Sur les Ombelliferes Véneneuses", sempre como aluno distinto.Obteve o reconhecimento do seu grau académico em medicina,  em Lisboa (1859) na Escola Médica.

Regressado ao Funchal foi professor da escola Médico-Cirúrgica do Funchal (1861), tendo presidido à sua direcção ( entre 1866 e 1883).Esta Escola Médica, existiu durante 73 anos ( 1836 a 1910) e formou 250 médicos.

Por decisão do Rei D. Luis I, foi-lhe concedido o título nobiliárquico de 1º Visconde de Canavial ( por decreto de 22 de Abril de 1880) e posteriormente o título de Conde de Cannavial ( a 15 de Dezembro de 1888) decerto, em reconhecimento do seu mérito, valor, patriotismo e prestígio, decorrente da sua carreira multifacetada, distinguindo essa notoriedade exemplar.

Consta,  em referência aos títulos nobiliárquicos, quanto este condado, na ordem sucessória o seguinte :
- 1º Conde de Cannavial - João Câmara Leme Homem de Vasconcelos;
- 2º Conde de Cannavial - José Luis Cannavial de Brito Gomes;
- 3º Conde de Cannavial - Duarte Manuel da Câmara de Brito Gomes;
- 4º Conde de Cannavial - Henrique Teixeira Brederode de Brito Gomes.

Principais aspectos da vida e obra do 1º Conde de Cannavial - João da Câmara Leme 

No contexto da sua vida e da sua actividade tão  diferenciada, plena de trabalho e de obra feita, fica demonstrado a riqueza,o mérito e o valor da sua vida, deste homem de ciência, de cultura, de criatividade e iniciativa.

No plano político participou activamente, com a filiação em vários partidos  representados na Madeira - no partido fusionista (1865), no Partido Popular (1868), no partido  Progressista (1876) -  tendo sido governador civil do Distrito do Funchal ( como interino entre 1879 e 1891 e como efectivo entre 1886 e 1888). No plano da acção social, criou a Associação de protecção e instrução do sexo feminino funchalense (1875) e a Associação  madeirense promotora do Bem Público e do Auxílio Mútuo (1877).

Como cientista ( na área da medicina) para além da sua carreira de professor, publicou muitos trabalhos científicos e técnicos, com expressão nacional e internacional.

Foi jornalista e fundou  três jornais : "A liberdade", "O Distrito do Funchal" e "A Luz". 
Traduziu do francês o  romance clássico :  "Conde Herman" de Alexandre Dumas.

Como poeta publicou poesia de que se destaca, um excerto do poema "Rosa":

" Purpúrea, mimosa flor                                                                                                                                      
que excedes tanto as mais belas
que tanto cede à luz do Sol
à frouxa luz das estrelas
quanto ao anjo dos meus sonhos
as mais formosas donzelas.

Linda ontem viçosa
foste invejada por mim
entre o verde da folhagem 
a tua cor de carmim
semilhava entre esmeraldas
rubro brilhante rubim.

Porém hoje, oh que mudança
como estás desconhecida
quase perdidas as folhas
descorada, emurchecida
jazes triste e sem alento
na débil haste pendida.

Foste por tua beleza
rainha deste jardim
e murchaste, envelheceste
E tudo no mundo é assim
tudo desfalece e morre
tudo tem mesmo o seu fim.


Acção como empresário/industrial: Vinho, Aguardente,Açúcar

A economia da Madeira da época, centrava-se muito na produção do vinho a da aguardente, sendo importante o acompanhamento técnico das vinhas e vinhedos, face às pragas e doenças e no aperfeiçoamento tecnológico da indústria vinícola, que dava os seus primeiros passos, com o recurso à industrialização. A cana sacarina, ocupava os campos de cultura, dado a importância desta na produção de açúcar, de aguardente e de álcool.

Deste modo o Conde de Canavial interessou-se na produção e melhoria do vinho madeira e do açúcar.
No que se refere ao Vinho da madeira, enquanto especialista em enologia, introduziu novas técnicas no apuramento do Vinho, com recurso ao aquecimento rápido e o seu arrefecimento lento. O vinho sujeito a este processo inovador, mantinha as suas qualidades e apurava outras, tendo criado o vinho canavial " o vinho canavial era normalmente preparado com a casta Boal, com as propriedades : digestivo, antissético,medicinal,alimentício".

Fundou a Companhia Fabril de Açúcar Madeirense (1870), com instalações fabris ajustadas,com fábrica  junto à ribeira de S.João, destinada à destilação de aguardente, e ao fabrico de açúcar, recorrendo a processo inovador que o Conde criou e patenteou,aproveitando melhor o suco do bagaço, invenção que ao que era alegado, terá sido depois adoptada pela Fábrica do Torreão, propriedade de Willian Hinton, o que deu origem a vários processos e contendas judiciais. Face a um conjunto de problemas e contrariedades - incluindo sabotagens - a Companhia Fabril encerrou a sua actividade (1879) colapsando face ao poder económico e ao monopólio entretando estabelecido, do seu rival inglês.

Outra iniciativa curiosa do Conde Canavial, foi o cultivo do bicho-da-seda, chegando a instalar viveiro de amoreiras brancas (1877), todavia esta actividade não obteve sucesso.

Refira-se que a sua filha, D. Maria Eugénia da Câmara Homem de Vasconcelos (1863-1945), na esteira da obra de seu pai,  teve uma importante intervenção social na Madeira de então, tendo fundado o Centro Infantil (Lactário)e a Escola Maria Eugénia de Canavial, para apoio às crianças pobres,  trazendo para a Madeira a Congregação da Apresentação de Maria para concretizar e apoiar a sua acção em prol da infância.

A Madeira, em reconhecimento da obra deste insigne cidadão, erigiu uma escultura com o seu busto, da autoria do escultor Raul Xavier, com projecto de pedrestral do arquitecto Fernando Pires, monumento inaugurado a 21  de Fevereiro de 1922 - primeiramente instalado frente  à Sé Catedral e posteriormente transferido para a parte norte do Jardim do Campo da Barca, em 6 de Dezembro de 1932, testemunhando o seu apreço pelo notável percurso de vida deste nobre madeirense.


Fica patente deste modo,  na resenha apresentada, necessáriamente concisa e ligeira  - é escassa a documentação sobre a vida do Conde de Cannavial, lacuna que os estudiosos e historiadores locais deveriam suprimir - revelando da importância e da acção em vários domínios do  1º Conde de Canavial - Dr. João da Câmara Leme Homem de Vasconcelos - distinto madeirense, político empenhado na causa pública, ilustre cientista, intelectual multifacetado, industrial empreendedor e cidadão exemplar, que marcou o seu tempo pela sua dinâmica e intervenção e como tal merece e justifica um lugar de destaque na memória e na história desta terra insular.





* Rui Gonçalves da Silva -Madeira/2017  

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