* IMPERADOR CARLOS I da ÁUSTRIA NA MADEIRA



O Imperador Carlos I da Austria na Madeira : Um exílio especial

A Madeira, pequena região insular de Portugal, está intimamente ligada à história da Europa, nomeadamente pela sua ligação à familia dos Habsbourgos, quer pela sua relação com a imperatriz Sissi, quer à vida do Imperador da Áustria e  Rei da Hungria, Carlos I, que viveu nesta terra,  parte do seu exílio (1921/22) e aqui faleceu, ( 1 de Abril de 1922) bem novo, aos 34 anos e onde permanecem os seus restos mortais, em capela própria na Igreja do Monte, freguesia da zona alta da cidade do Funchal.
Por isso, registamos este facto histórico e marcante, dando conta, em apontamento breve, da passagem e vida deste Imperador/ agora também beatificado ( em 2004) nesta Região e da sua importância para a Madeira, uma vez que projectou esta pequena terra, a dimensão mundial, no plano histórico, já que sempre foi conhecida, no plano  turístico, pela sua beleza e afabilidade.
Ao referenciar este Imperador, da geração dos Habsbourgos, vamos situá-lo no seu contexto histórico e familiar, a partir do Imperador que o antecedeu - Francisco José, seu tio/avô, casado com a imperatriz Sissi -.
 
A  família dos  Habsbourgos - Austríacos - teve origem no século XI na Suiça. O designado Sacro Império Romano- Germânico, que fundaram, teve como primeiro soberano Rudolfo IV ( 1273-1291). A casa dos Habsbourgos foi a família reinante na Áustria desde 1278 a 1918, sendo Carlos I o último imperador do Império Áustro-Húngaro.
Refira-se que o reino de Portugal esteve sob influência destes, através do dominio espanhol da dinastia de origem austríaca dos Habsbourgos - os Filipes -  cessando em 1 de Dezembro de 1640 , com o fim do reinado de D.Filipe III e a restauração de Portugal independente, pela acção do Duque de Bragança, futuro D.João IV.

Ao longo dos tempos  vários  Habsbourgos  estiveram na Madeira : 
- a arquiduquesa Leopoldina na sua viagem para o Brasil em 1817, para se juntar ao imperador D.Pedro I, com quem se casara, por procuração;
- o arquiduque Maximiliano e sua esposa Carlota da Bélgica;
-  A  imperatriz Elisabete (Sissi):
-  Imperador Carlos I
- Imperatriz Zita de Borbon.

Em pleno império de Francisco José ( 1830-1916) este depois de enviuvar em 1898, por morte da imperatriz Elisabete (Sissi), viveu como a sua companheira Catarina Schratt. Contudo, para as cerimónias da Corte, o imperador escolheu, a partir de 1911, a sua sobrinha-neta ( por casamento com o seu sobrinho-neto Carlos) Zita de Bourbon-Parma, para abrir os bailes. Zita era neta do Rei português D.Miguel, pelo que genealógicamente, o Rei português D.João VI era antepassado comum desta e de seu marido, do que resulta a ascendência lusitana destes.
O sucessor natural do Imperador Francisco José, seria o seu filho Rudolfo, que todavia falecera, suicidando-se com a sua namorada.
O Imperador tinha três irmãos :
- Maximiliano (1832-1867), que esteve na Madeira várias vezes, em passagens para o México, de onde foi imperador. Foi assassinado aos 35 anos.
- Carlos Luís (1833-1896), que casou três vezes, sendo a última com D. Maria Teresa de Bragança. Faleceu aos 63 anos.
-Luís Víctor (1842-1919) que não deixou descendência. O Imperador Francisco José baniu-o da Corte por não aceitar a sua homossexualidade.
Na ordem de sucessão do Imperador Francisco José, estava assim, o filho primogénito do seu irmão Carlos Luís, o sobrinho  Francisco Fernando, que foi assassinado em Sarajevo (1914), morte que acabou por desencadear a I Guerra Mundial.
Com a morte deste, a situação complica-se em termos de sucessão, pois pelo facto de ter contraído casamento morgamático ( fora da união de sangue real) com Sofia Chotek, teve como consequência, que os seus herdeiros não podiam ter acesso ao trono.
Deste modo e face a estas contingências e adversidades, o herdeiro do trono passou a ser o filho mais velho do 2º irmão do Imperador Francisco José, o arquiduque Otão (1865-1906), Carlos Francisco José,  que não tinha sido preparado, nem decerto pensaria em tal probabilidade, que viria a ter mais tarde, o titulo de Carlos I de Áustria, e Carlos V da Hungria.

CARLOS I de Áustria

Carlos Francisco José, sobrinho-neto de do Imperador Francisco José, filho do arquiduque Otão e de D. Maria Josefa, irmão do imperador, foi educado por este,face ao comportamento desregrado e boémio de seu pai e como tal teve uma educação disciplinada e esmerada, marcada pela formação cívica e sobretudo religiosa.
O Imperador Francisco José, designou-o seu herdeiro,  tendo subido ao trono no dia 20 de Dezembro de 1916,após a morte daquele a 1 de Novembro de 1916, em plena Guerra.
No seu reinado curto,  criou na Áustria o Ministério da Saúde e Assistência Social (1917) e decretou amnistia para os presos políticos
A 12 de Dezembro de 1918 era proclamada na Áustria a república e em Março de 1919, a familia real vai para o exílio e parte para a Suiça, para a casa da duquesa de Parma.

O Exílio na Madeira

Os Paises vencedores da 1ª Guerra mundial, decidiram determinar novo local de exílio, para o Imperador Carlos e a sua consorte Zita,mais distante da Áustria e da Hungria, para obstar a tentativas de recuperação do trono e a Madeira surge como local indicado, por ser um destino já conhecido das famílias reais. Assim, a bordo do cruzador Cardiff, chegam à bela Ilha da Madeira a 19 de Novembro de 1921. Aqui ficam inicialmente instalados numa vivenda familiar junto ao Hotel Reid´s, ( Vila Victória) na zona oeste do Funchal, num local aprazível e sobranceiro ao mar e depois, por dificuldades económicas, foram residir para uma Quinta do Monte, cedida por um banqueiro local (Rocha Machado).
Entretanto,em Janeiro de 1922 a imperatriz Zita teve especial autorização para ir à Suiça, assistir a operação de seu filho Rudolfo e trazer os restantes seis filhos (iria ter o 8º filho já após a morte do esposo).

A Madeira, não foi propriamente terra de exílio, pois a população tinha especial apreço pelo Imperador Carlos e esposa, pois estes eram muito afáveis  e humildes, tinham uma vivência simples e discreta e assim, eram bem acolhidos..
Entretanto, o imperador Carlos, adoece e apesar dos cuidados médicos, morre no dia 1 de Abril de 1922 de broncopneumonia, num sábado de Aleluia e com ele acabou a monarquia austrohúngara.
A sua morte, tão precoce ( tinha apenas 34 anos) causou viva consternação na população madeirense e foi um luto geral e sentido.
Por decisão da família, foi sepultado na Igreja do Monte, ( o seu coração  foi levado para Viena) contígua à quinta onde residia, onde permanece, agora em capela própria, numa zona lateral deste templo, local  muito visitado e estimado por todos, residentes e visitantes de todo o Mundo.

A 19 de Maio de 1922 a Imperatriz Zita e filhos deixa a Madeira, rumo a Espanha, grávida de 8 meses, afirmando " Deixo o meu coração nesta Ilha". A imperatriz viveu até aos 97 anos, tendo falecido em 1989.
A Imperatriz Zita, ainda regressou à Madeira, por duas vezes: Em Abril de 1967, acompanhada pela sua filha mais nova ( Elisabete) e em Janeiro de 1968, com os seus filhos Otto e Adelaide, aquando da inauguração da Capela mortuária de Carlos de Áustria.
Como facto histórico e relevante, refira-sem que, durante a II Guerra mundial, a Imperatriz Zita e os seus filhos, escaparam à perseguição nazi, através da concessão de Visto para Portugal, concedido pelo Cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes.
A 1 de Abril de 1972, por altura do 50º aniversário da morte do Imperador, a efeméride foi devidamente assinalada na Madeira, tendo estado presente no evento 3 filhos : Otto, Rudolfo e Carlos Luís e familias.

A Beatificação de Carlos I de Áustria

A vida do imperador Carlos é marcada pela sua profunda religiosidade e pelo seu sentido humanista. Nesse sentido em 1949 iniciou-se o processo tendente à sua beatificação. Em 2003 o Papa João Paulo II proclama as virtudes do servo de Deus Carlos, dando ao imperador o titulo de "venerável". Posteriormente um decreto promulga o milagre que lhe é atribuído ( em relação a graça a religiosa polaca em missão no Brasil). Finalmente em Outubro de 2004, o Papa João Paulo II proclama-o de Beato, considerando que ele "procurou a Paz, ajudou os pobres e cultivou a vida espiritual". Não obstante  a sua vida exemplar e a sua religiosidade, na altura sugiram alguns contestatários e esta beatificação, face à participação na Guerra.

Com este simples registo e este singelo apontamento, registamos o essencial da vida deste Imperador e da sua ligação eterna à Madeira, onde jaz e permanece, neste pequena  terra insular que o acolheu e que assim o venera, pela sua humanidade e valor.

* Rui Gonçalves da Silva /Madeira - Junho de 2014



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