* CONDES DA CALHETA - MADEIRA

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* CONDES DA CALHETA - MADEIRA

O histórico alusivo ao Condes da Calheta/Madeira,  representa uma importante matéria da historiografia da nobreza da Madeira, que mantém a sua premência e a  necessidade  do seu conhecimento, mercê até da existência nos nossos dias, do palácio dos ditos Condes da Calheta- sito em Belém/Lisboa -  sumptuoso palácio ex-libris da arte portuguesa, que com o jardins anexos, constitui um motivo de atração nacional, que implica o conhecimento destas personagens, ligadas ao descobrimento da Madeira e directamente ligadas ao seu descobridor João Gonçalves Zarco.
Tudo se inicia de facto, com a senda dos navegadores e descobridores portugueses, orientados pelos designios do Infante D. Henrique, que chegaram às ilhas atlânticas do Porto Santo (1418) e da Madeira (1419), matéria de particular actualidade, quando se iniciam as comemorações dos 600 anos da descoberta da Madeira.
Pela curiosidade suscitada, em torno do Palácio dos  Condes da Calheta, achámos oportuno, referenciar estes nobres e o seu percurso histórico, identificando, de forma simples e sumária tais personagens e contextualizando-os no  tempo, como temos empreendido, com outras personalidades, de algum modo, ligadas à Região da Madeira.

Vamos inicialmente identificar  os nobres em causa, partindo do antepassado comum -João Gonçalves Zarco - como um dos descobridores da Madeira, a par de Tristão Vaz Teixeira e de  Bartolomeu Perestrelo, nos primeiros tempos do povoamento da Madeira  e da sua divisão administrativa - as capitanias do Funchal, de Machico e do Porto Santo - a partir da listagem dos donatários da capitania do Funchal, e da sua conjugação com a linhagem dos Condes da Calheta, personagens que se interligam nesta abordagem histórica e deste modo identificarmos os seus agentes, tendo em conta o facto - comum na nobreza de então - da existência de nomes familiares idênticos - o que suscita problemas de identificação destes no tempo e assim sendo a cronologia permite um visão de conjunto.

Povoamento da Madeira: Donatarias/ Capitanias


A coroa portuguesa, como forma de fomentar o povoamento e desenvolvimento económico das terras (Ilhas) descobertas, adoptou o sistema da "donatarias",delegando os seus poderes sobre tais domínios a fidalgos/nobres (Donatários) na impossibilidade de administrar directamente os seus direitos sobre tais possessões, cediam a estes tais prerrogativas, que por sua vez delegavam noutros tal exercício - os capitães donatários - como adiante referiremos no que concerne à Madeira.
Assim por decisão do Rei D. Duarte(1433) o 1º donatário da Madeira ( Ilha da Madeira e Porto Santo) foi o Infante D. Henrique (1394-140) - da ínclita geração, filho de D.JoãoI e Dª. Filipe de Lencastre - irmão do rei, duque de Viseu e governador da Ordem de Cristo.
O 2º Donatário foi o sobrinho do Infante D. Henrique, o Infante D. Fernando (1433-1470), casado com a Infanta D. Beatriz.
Quando o Infante D. Fernando faleceu, como os seus filhos eram menores, a Infanta D. Beatriz, assumiu a donataria ( 3º Donatária).
O 4º Donatário, da Madeira, foi o Infante D. Diogo, sendo o 5º Donatário, D. Manuel, e uma vez que subiu ao trono, a donataria reverteu para a Coroa portuguesa.


Como referimos, os navegadores portugueses João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo, (re)descobriram o Porto Santo (1418) e depois a Madeira (1419), não obstantes as teses históricas de que antes destes, estas ilhas atlânticas já teriam sido visitadas por outros, figurando mesmo em mapas antigos, só que o que é facto é que permaneciam desertas e inexploradas, até à chegada dos navegadores portugueses.

O domínio destas ilhas foi doado pela Coroa portuguesa ao Infante D. Henrique( 1º Donatário) e por altura de 1425, começou o seu povoamento, por iniciativa de D. João I, com o desbravamento das suas terras, o plantio dos seus campos e a criação de gado.
Para facilitar o seu desenvolvimento, foi estabelecido o regime da divisão da Região por capitanias-donatárias, do seguinte modo :
- em 1440 foi criada a capitania de Machico - doada a Tristão Vaz Teixeira;
- em 1446 - a capitania do Porto Santo- doada a Bartolomeu Perestrelo;
- em 140 - a capitania do Funchal - doada a João Gonçalves Zarco.
Os três capitães donatários, vieram acompanhados da familia, bem como de elementos da pequena nobreza e populares.

Capitanias - Donatários : Capitania do Funchal

Para além dos Donatários da Madeira, de acordo com concessão da Coroa Portuguesa, conforme já referido, vejamos o elenco dos capitães donatários do Funchal:

- 1º Capitão Donatário : João Gonçalves Zarco (1390-1471), nasceu em Matosinhos e faleceu no Funchal;
- 2º Capitão Donatário : João Gonçalves da Câmara (1435-1501);
- 3º Capitão Donatário :Simão Gonçalves da Câmara ( 1463-1530), neto de João Gonçalves Zarco;
- 4º Capitão Donatário: João Gonçalves da Câmara (1489-1536);
- 5º Capitão Donatário : Simão Gonçalves da Câmara (1512-1580) - 1º Conde da Calheta;
- 6º Capitão Donatário : João Gonçalves da Câmara (1541-1580) -   2º Conde da Calheta;
- 7º Capitão Donatário : Simão Gonçalves da Câmara (1565-1630) - 3º Conde da Calheta;
- 8º Capitão Donatário : João Gonçalves da Câmara (1590-1656) - 4º Conde da Calheta;
- 9º Capitã Donatária :  Mariana de Lencastre Vasconcelos e Câmara (1610-1698) ;
-10º Capitão Donatário: Luis de Vasconcelos e Sousa (1689-1720) ;
-11º Capitão Donatário: Afonso de Vasconcelos e Sousa  (1734-1734) - 5º Conde da Calheta;
-12º Capitão Donatário : António  José de Vasconcelos e Sousa Caminha da Câmara Faro e Veiga (1734-1766)- 6º Conde da Calheta e 2º Marquês de Castelo Melhor;

CRONOLOGIA DOS CONDES DA CALHETA

O titulo de Conde da Calheta foi atribuído pelo Rei D. Sebastião (1554-1578) por Carta Régia de 20 de Agosto de 1576, a favor de Simão Gonçalves da Câmara, 5º Capitão donatário do Funchal,  como 1º Conde da Calheta , sendo o título nobiliárquico mais antigo, da nobreza da Madeira,concedido como reconhecimento e recompensa dos seus serviços  e feitos de armas, sobretudo na defesa da fortaleza portuguesa de Santa Cruz do Cabo Gué, no Norte de África - hoje Agadir/Marrocos -. Esta fortaleza for cercada pelos Mouros, em 1533 e corria o perigo de ser tomada pelos seus atacantes e os seus defensores pediram ajuda à Madeira, a que respondeu Simão Gonçalves da Câmara, tendo organizado um corpo expedicionário composto por 600 Homens, que embarcaram em 6 navios  e assim conseguiram afastar os Mouros da Fortaleza. 

Vejamos a cronologia dos Condes da Calheta, importantes nobres que repartiam a sua vida entre a Corte de Lisboa e a Madeira:

- 1º Conde da Calheta : Simão Gonçalves da Câmara ( Funchal 1512-1580) -  5º Capitão donatário da capitania do Funchal;
- 2º Conde da Calheta : João Gonçalves da Câmara -(Funchal 1541-1580) -  6º Capitão donatário da capitania do Funchal;
- 3º  Conde da Calheta : Simão Gonçalves da Câmara (1565-1630) -  7º Capitão donatário da capitania do Funchal;
- 4º Conde da Calheta : João Gonçalves da Câmara (Lisboa 1590-1656) -     8º Capitão donatário da capitania do Funchal;
- 5º Conde da Calheta: Afonso de Vasconcelos e Sousa Cunha Câmara Faro e Veiga (Lisboa 1664-1734) -  11º Capitão donatário da capitania do Funchal;
- 6º  Conde da Calheta : José de Vasconcelos e Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga  ( Lisboa 1738-1801)  - 2º Marquês de Castelo Melhor:
- 7º Conde da Calheta : António Vasconcelos e Sousa da Câmara Caminha Faro e Veiga (1783- 1827) - 3º Marquês de Castelo Melhor;
- 8 º Conde da Calheta : António de Vasconcelos e Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga (Lisboa 1816- 1841) - 4º Marquês de Castelo Melhor;
- 9º Conde da Calheta : João de Vasconcelos e Sousa Câmara Caminha Faro e Veiga (Lisboa 1841-1878) - 5º Marquês de Castelo Melhor;
- 10ª Condessa da Calheta : Helena Maria de Vasconcelos e Sousa Ximenes ( Lisboa 1871-1937)- 7º Marquesa de Castelo Melhor;
- 11º Conde da Calheta : Bernardo Manuel de Vasconcelos e Sousa (1830-1964);
- 12º Conde da Calheta : Bernardo João da Silveira de Vasconcelos e Sousa (1957 -...) - 9º Marquês de Castelo Melhor . 
   Nota : Não obstante a queda da monarquia e a implantação da República este é o actual representante dos Condes da Calheta

Palácio dos Condes da Calheta - Lisboa (Belém)

Feita a síntese sobre a vida e cronologia dos Condes da Calheta, melhor compreenderemos a existência em Lisboa(Belém) do Palácio dos Condes da Calheta e quem foram estes nobres.
Este importante palácio, atravessou os tempos, foi parte da história da monarquia,sofreu melhorias e restauros e mantém-se ainda hoje, como referência, nos palácios dignos de visita.
Foi mandado construir por João Gonçalves da Câmara, 4º Conde da Calheta, como residência de veraneio, nas encostas de Belém (Lisboa - junto ao Mosteiro dos Jerónimos).
Este palácio tem salas decoradas com requinte, dispondo de gravuras, estátuas e azulejos e possui jardins exteriores de inegável beleza.

Este palácio alojou nobres e nele decorreram sessões do conhecido processo dos Távoras ( atentado contra o rei D.José I em 1798). A 3 de Abril de 1798, D. José I, abandonava o palácio após uma noite com a sua amante Teresa de Távora, quando foi alvo de um atentado. O Rei embora ferido, escapou ao atentado, acto que foi considerado como tendo sido realizado a mando  dos Távoras, levando a processo drástico contra estes, levando à execução pública de vários nobres desta casa,mulheres e crianças,  sendo decapitados e queimados vivos.O Duque de Aveiro que seria apontado como sucessor ao trono foi preso.
Foi um processo marcante e terrível pela forma da sua execução, em praça pública, com uma violência e malvadez desmedidas, sendo considerado vingança aos Távoras, importante casa nobre e uma forma de suprimir esta família e de forma indirecta os Jesuítas que a apoiavam, face ao despotismo de Sebastião de Melo ( Marquês de Pombal).

O palácio do Duque de Aveiro, em Belém, foi demolido e o terreno do mesmo foi salgado, simbolicamente, para que nunca mais nada ali crescesse. O local , é actualmente  designado de "Beco do chão salgado".
A marquesa D. Leonor de Távora ( a marquesa velha) foi decapitada e a marquesa D. Teresa de Távora ( a marquesa nova) , amante de D. José I foi para um convento.

A culpa ou inocência dos Távoras foi sempre questionada, porém os historiadores têm dúvidas da autoria do atentado, ilibando os Távoras. Atribui-se este acto de vingança contra os Távoras, a Sebastião de Melo ( Marquês de Pombal)que assim eliminara os seus inimigos - os Távoras e os Jesuítas. Mais tarde a rainha D. Maria  que não concordara com o processo e a forma de tratamento aos Távoras, retirou poderes ao Marquês de Pombal e expulsou-o de Lisboa.

Nota Conclusiva : Fica assim referenciado, de forma muito linear e breve, sem outras pretensões, a não ser uma simbólica e singela anotação, sobre o essencial da vida e da casa nobre dos Condes da Calheta, e concomitantemente da génese e importância do Palácio dos Condes da Calheta, existente em Lisboa (Belém), que é um local apelativo para visita, pela sua beleza, pelos seus jardins e  pela porção  de vida e história que insere, que importa sublinhar.

* Rui Gonçalves da Silva - Madeira/Fevereiro de 2018



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