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* Madeira : A importância histórica das ligações maritimas



A MADEIRA e as ligações marítimas com o Continente e o Mundo

A Madeira, como região insular sempre esteve ligada ao mar e este sempre foi o caminho aberto para o Mundo e pela sua localização, o seu principal porto - Funchal - sempre acolheu navios de todo o Mundo,trazendo turistas e levando os nossos emigrantes para as quatro partidas do mundo - basta recordar os fluxos migratórios intensos para o Brasil, Venezuela, África do Sul. Austrália. 
Por isso quem viveu nesta terra, nesta região insular, sempre conviveu com a imagem de muitos navios no porto, acostados ou ao largo,particularmente antes do tráfego aéreo ser rotina - o  que aconteceu até ao inicio dos anos 70  - onde o barco era o meio de deslocação para o Continente e para os vários destinos da emigração.
As ligações marítimas com o Continente português ocorreram até 1975, com muitos barcos da frota da marinha mercante portuguesa que asseguravam esse tráfego, a par de outros barcos de empresas estrangeiras, como os famosos " navios do cabo" que asseguravam a rota de Southampton para a Madeira e desta para Cap Town ( África do Sul).
Nos anos 60/70 as ligações maritimas como Continente, para o transporte de passageiros eram feitas por vários navios das Companhias de navegação nacionais existentes, destacando nos últimos tempos o navio "Funchal " e "Angra do Heroísmo" que até 1975 garantiam tais ligações, que depois foram mantidas pelo navio "Niassa", em finais de 1987 e por curto período, após o  grave acidente aéreo da TAP.
O transporte de mercadorias sempre manteve-se assegurado por várias empresas.
Entretanto regista-se que a Companhia Portuguesa de transportes marítimos (CTM) surgia em  1974, da fusão da Companhia Colonial de Navegação (CCN) com a empresa Insular de Navegação (EIN)
A empresa Insular de navegação (EIN) tinha sido constituída a 13 de Dezembro de 1871, com o propósito de fazer a ligação entre a Madeira e os Açores, com o continente nacional e americano.
A Companhia Colonial de Navegação (CCN) fora fundada a 3 de Julho de 1922, por um grupo de empresas de Angola e da Guiné.
Em 1980 é criada a empresa de navegação madeirense, essencialmente para o transporte de contentores de Lisboa e Leixões para o Funchal.
Por seu turno, em 1984, foi criada a empresa Transinsular - transportes marítimos insulares , vocacionada para as mercadorias.

Em 1985 o governo português procedeu à liquidação das últimas grandes companhias de navegação - a companhia portuguesa de transporte marítimo e a companhia nacional de navegação - cessando, na altura,  deste modo, o transporte regular de passageiros entre a Madeira e o Continente, ficando a Região dependente apensas e só do transporte aéreo que até 2008 era monopolizado pela TAP.
O transporte de mercadorias sempre manteve-se assegurado por várias empresas.

Mas o que pretendemos é evidenciar a época nobre dos transportes marítimos de passageiros  - antes do advento da rotina e da quase exclusividade do transporte aéreo, que por mais rápido e vulgar ganhou dimensão -  depois do período  dos navios a vapor, mas sobretudo nos anos 50/60/70 onde os navios de médio e grande porte eram frequentes dominavam e constituíam o meio de ligação entre os povos.

Tempos em que Portugal dispunha de uma grande frota na sua marinha mercante de mercadorias e sobretudo de passageiros, onde os navios das várias companhias surgiam nos mares, aportavam ao porto do Funchal com frequência e regularidade, com as suas cores e símbolos diferenciadores, fazendo parte do quotidiano e da memória de tantos de nós. Os nomes desses barcos eram comuns a todos , de que citamos alguns : Vera Cruz, Santa Maria, Império,Infante D.Henrique, Funchal, Angra do Heroísmo, Lima, Carvalho Araújo,Angola, Príncipe Perfeito,Uíge, Benguela, Timor, Pátria,Niassa,Moçambique, Amboim, Horta, India,Luanda, Quanza... 

A minha primeira viagem a Lisboa, foi em 1968, no navio "Funchal", que em cerca de 30 horas chegava à capital e acostava no cais da Rocha/Conde de Óbidos, nesse tempo de barcos e de viagens, que eram aventuras e sofrimento, em que tudo acontecia no ritmo dessas viagens e no ritual que elas comportavam, só compreendido por quem viveu estas experiências, tão diferentes dos tempos actuais, agora com viagens breves e rápidas ( de avião) e à distância de uma chamada do telemóvel, que encurta a lonjura e sacia a saudade.

Durante anos, assisti no cais e na pontinha ( Funchal)  à chegada e à partida de tantos navios, na alegria de chegadas de amigos e familiares e na dolorosa ângustia das partidas, dos que iam para o Continente ou dos que partiam para rumos distantes na senda da emigração, com imagens tristes de despedidas plenas de lágrimas e choro, com lenços brancos no adeus.

Quando os navios, por razões de logística e de dias de maior afluxo, fundeavam ao largo, na baía do Funchal, existia, ao tempo, serviço de transbordo, assegurado por pequenas barcas, que ligavam os navios ao cais  regional.

Quanto ao transporte de passageiros e mercadorias inter-ilhas, ou seja para a Ilha do Porto Santo, existe uma histórico dessa rota, desde os tradicionais barcos à vela, até a navios de pequeno e médio porte ( Madeirense e Funchalense que fundeavam ao largo) chegando tais ligações a ser asseguradas por antigos cacilheiros. Mais recentemente tal ligação passou a ser feita por modernos e cómodos navios ferry, sendo no momento garantido pela empresa Porto Santo Line, através do ferry "Lobo Marinho", cuja viagem é de cerca de 2,5 horas. A ligação entre a Madeira e o Porto Santo é igualmente assegurada por via aérea, numa linha específica, voo que dura cerca de 15 minutos.

Mais recentemente, em 14 de Junho  de 2008, foram reatadas as ligações marítimas, com o Continente  (Portimão) através da empresa espanhola (Canárias) Navierra Armas, que iniciou uma ligação regular entre  o  Funchal, Las Palmas (Canárias) e Portimão (Algarve), através do ferry "Volcan Tijarafe", contudo esta opção, não obstante ser bem acolhida pela população das regiões envolvidas, teve obstáculos de vária ordem, particularmente de interesses instalados  no sector, e por carência e insuficiência de apoios para suporte desta ligação, cessou em Janeiro de 2012, deixando de haver tal opção, o que aumenta a insularidade e a dependência do  transporte aéreo.
Até à data ( 2017) apesar das tentativas e promessas para retomar esta ligação, ainda não foi reposta, ao que é alegado, por falta de interessados e de incentivos motivadores e que possibilitem uma operação rentável, com transporte de mercadorias e passageiros.

Constatamos que Portugal, País de mar e de marinheiros, com longa história neste domínio,  apesar do imenso mar na sua zona económica, não é potência maritima, tendo cada vez menos navios de bandeira nacional, e ao nível do transporte de passageiros é inexistente o seu papel, depois dos anos de algum volume, sobretudo para apoio às suas colónias e ilhas adjacentes, dispondo nesta altura de uma frota importante, sendo frequente muitos desses navios aportarem ao porto do Funchal. ( como curiosidade refira-se que a Suiça, País sem mar, dispôe de uma importante frota, sendo a 2ª potência mundial no sector,  onde se evidencia a empresa Mediterrane Shipping Company /MSC, com 422 navios).

Actualmente o movimento do porto do Funchal, para além do tráfego normal e rotineiro de navios de mercadorias ( porta contentores) nacionais e internacionais,  é reavivado com o  fluxo constante de navios de turismo de cruzeiros,de várias empresas internacionais, com a presença de grandes navios e dos maiores do mundo, que transportam milhares de turistas, actividade que assume importância notória e crescente, contribuindo fortemente para a economia local.

O que é facto é que o mar e o movimento de navios, de pessoas e sonhos, continua a ser uma constante na realidade desta Região e mantém vivo todo um histórico  de experiência e de vivências, que importa referenciar, porque o presente faz-se do passado, da memória e da saudade.

* Rui Gonçalves da Silva - 2017





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