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* Madeira: Incêndios de 2016


 

Incêndios na Madeira de 2016

 

Agosto de 2016. Vaga de calor anormal, no inicio de Agosto. 

No domingo 7 de Agosto, a exemplo dos dias anteriores, sentia-se temperaturas elevadas, anormais mesmo para a época. Nesse dia, fugindo ao calor da orla  marítima, decidi uma incursão pelas zonas mais frescas , subi até ao Monte, depois ao Poiso, at é ao restaurante " Abrigo do Pastor" para almoçar. Mesmo por ali, entre eucaliptos e pinheiros, sentia-se  o calor. Depois desci até ao Terreiro da Luta e percorri o caminho florestal, pelo Curral dos Romeiros, passando pela Choupana, até S. Gonçalo, dentro do possível pela sombra , mas sentindo um calor intenso ( temperatura acima dos 35º e pouca humidade). Apetecia sombra, bebida fresca a repouso.

Dia 8 de Agosto, segunda feira, dia de trabalho. Calor intenso quase insuportável, a lembrar-me a Grécia que tinha visitado recentemente.

Pela tarde aviso de incêndio na zona alta do Funchal, mais propriamente no sitio da Alegria, no sitio da Cova.

Do centro da cidade do Funchal, avistava-se o local do incêndio, numa enorme e densa nuvem de fumo. Começa a inquietação  dos incêndios. O vento soprava quente e forte com rajadas violentas, o que agigantava e alastrava o fogo. Tirei algumas fotos desse inicio.

Parecia localizada e controlado.

Lembrava o incêndio de 2012, que deflagrara também nas zonas altas do Funchal, ou seja, das serras de Santo António, passando para a zona do Palheiro Ferreiro, no topo de S.Gonçalo, que ganhara dimensão e fulgor pela noite, numa cortina dantesca de lume.

Dia 9 de Agosto, continuavam os incêndios, que o vento espalhava e consumia floresta e habitações numa fúria assustadora. 

Noite de calor intenso e vento violento que assustava, tal a fúria e intensidade, sem pausas, a adivinhar o pior.

Sabe-se pela manhã da proliferação de focos de incêndios. Outras zonas da Madeira com incêndios ( Calheta, ponta do Sol e Cãmara de Lobos). Aflitivo e assustador.

No ar um intenso cheiro de fogo e queimadas. Muitas habitações atingidas

Pela tarde a situação parecia controlada, apesar do calor e do vento feroz. Depois das 18 horas, vislumbra-se, do Centro do Funchal. uma enorme e espessa nuvem de fumo, galgando espaço  numa fúria devastadora, descendo agora das montanhas até ao litora

Da minha casa - Rua Conde de Carvalhal - avistava essa gigantesca onda de fumo e fogo descendo para zonas urbanas, numa cavalgada assustadora. Reguei o meu jardim, onde as flores estavam secas, e sedentas de água.pelo intenso calor e vento.

Gera-se o alarme geral e o pânico. O fogo impelido pelo forte vento chega a zonas urbanas. Vários locais atingidos, em zonas diferenciadas. O fogo atinge a zona histórica de S.Pedro e irrompem incêndios em prédios antigos. Labaredas gigantes. Explosões. Sirenes. As pessoas circulam aflitas, impedidas de regressar às suas casas, nas zonas atingidas. O trânsito fica caótico. Os familares estabelecem contactos para saber uns dos outros. 

A noite de 3ª feira, dia 9 é terrível. Fogo, labaredas,. muito fumo e um ar pesado, com intenso cheiro a queimado. Olhos postos na televisão, nos vários canais,que vão dando conta da situação e dos casos mais complexos. Arde a floresta nas zonas altas, ardem habitações em várias zonas da cidade do Funchal, ardem edifícios do centro histórico de S. Pedro. Uma noite de calor, vento , fumo, labaredas, explosões aqui e ali, um medo no ar e a sensação de não saber os limites deste flagelo.

Na manhã seguinte, tudo parece mais calmo. Sabe-se a dimensão da tragédia : 3 mortes, dois feridos graves, mais de 150 habitações destruídas, centenas de desalojados, dramas e dramas de pessoas que perderam tudo.

A pouco e pouco a situação vai regressando à normalidade, continuando alguns focos de incêndio, sobretudo noutros concelhos.

Nas ruas, nos locais de trabalho, em todo o lado, as pessoas encontram-se e dão conta das suas histórias, dos dramas vivenciados, do que viram e sentiram, nestes trágicos incêndios e todos têm algo para contar, como é normal num meio pequeno.

Elogia-se o esforço e o empenho árduo dos bombeiros, critica-se algumas opções de oportunidade de intervenção, evidenciam-se carências, vem ao de cima a velha querela da premência dos meios de combate aéreos de combate ao fogo.Sobra, como sempre a solidariedade a a entreajuda das pessoas e o ânimo em superar tudo.

A Madeira normal e a sua capital, são sitios de amenidade e de eterna primavera, onde sulcam as flores, onde os aromas doces e agradáveis da vegetação pairam, onde a tranquilidade, a beleza e a afabilidade das suas gentes, marcam a diferença e como tal, esses valores e essas caracteristicas retomarão o seu lugar e todo voltará, em breve à normalidade e das cinzas e destroços renascerá a vida.

Fica, para já, nesta 5ª feira, dia 11 de Agosto, o sabor amargo desta experiência assustadora, a visão do lado negro desta tragédia, a sensação de plena vulnerabilidade de todos nós, a necessidade de acautelar  e prevenir, tudo parecendo agora como um pesadelo, que deixou marcas indeléveis, de medo, pânico e de fragilidade, perante a natureza e sobretudo perante a arrogância e o desrespeito de alguns.

Esta ferida profunda que o lume fez, na terra, no verde, nas casas e sobretudo  nas pessoas,  haverá de cicatrizar, e nascerão flores, muitas flores, que apagarão estas memórias.

Ainda pairam résteas de alguns incêndios, em zonas mais longiquas, a noite ainda é de calor,porque é Agosto, mas sente-se aquela serenidade das noites de Verão, os rumores normais da noite, ouve-se os latidos dos cães, no céu as estrelas, sinais da vida a retomar o seu curso. 

* Rui Gonçalves da Silva - 11 de Agosto de 2016

 

 

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